Blog do Josué Morais: Uruguai.
O Uruguai foi criado como Estado no século XIX pra acalmar as tensões entre Brasil e Argentina no Rio da Prata: os dois queriam o território, ninguém levou.
Mas o país veio antes do povo. O que era ser um uruguaio?
Essa foi uma resposta que o futebol ajudou a trazer.
As primeiras décadas de Uruguai independente foram de guerra civil entre blancos e colorados. O triunfo do presidente colorado José Batlle y Ordóñez em 1904 começaria a colocar pra trás esse período.
Os batllistas passaram a impor valores modernos e urbanos sobre o novo país.
Em Montevidéu, começariam a aparecer bem definidas uma classe média e uma classe operária, assim como um sistema partidário moderno, com voto universal masculino desde 1922.
Todos os partidos queriam representar "o povo", mas o batllismo saiu na frente utilizando o futebol.
Batllistas comandavam a Asociación Uruguaya de Football (AUF) e o jornal mais vendido do país, El Día.
Bancaram a organização do Campeonato Sul-Americano de 1923 e garantiram: se o Uruguai ganhasse, levariam a seleção pras Olimpíadas de Paris de 1924, algo impensável até então.
Todo partido e corrente política tinha seu jornal e o El Día dava muito destaque ao futebol. Foi feito até um esforço financeiro pra enviar a Paris o sobrinho de Batlle, Lorenzo, cobrindo a participação uruguaia in loco. E o Uruguai, nação nova e exótica ao olhar europeu, venceu.
A seleção uruguaia jogava diferente dos europeus: ela driblava, primava pelos passes curtos e tinha até um jogador negro, Andrade, algo raríssimo na Europa.
Com amplo espaço no El Día, Lorenzo Batlle encheu as páginas do jornal com uma narrativa épica sobre as vitórias celestes.
Hoje festas de título são comuns, mas há 100 anos, era difícil que a população tomasse as ruas pra celebrar.
Aconteceu em Montevidéu, insuflada pelo El Día: bandeiras por toda parte, hino cantado. Até o presidente batllista José Serrato festejou da sacada da sede do governo.
Conta o historiador uruguaio Andrés Morales que, mesmo diante da vitória, outros jornais não deram o braço a torcer por razões políticas.
Os comunistas, por exemplo, criticaram em seu periódico o "nacionalismo enganoso", que não servia ao propósito esportivo de unir proletários.
Mas se jogar a Copa América, torneio continental mais antigo do mundo, serviu pro uruguaio se diferenciar do argentino e do brasileiro, o triunfo olímpico deu a ele uma afirmação global.
Nascia o mito do país pequeno que, contra as probabilidades, pela garra do seu povo, vencia.











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