Blog do Morais: Brasil saiu do radar da fome extrema, mas milhões ainda passam necessidade.
Em 28 de julho de 2025, durante a 2ª Cúpula de Sistemas Alimentares da ONU, foi anunciado oficialmente que o Brasil saiu do Mapa da Fome.
Segundo o relatório SOFI 2025 (Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo), no triênio 2022–2024, o percentual da população em condição de subnutrição crônica (PoU, Prevalence of Undernourishment) caiu abaixo de 2,5%, o limite que define a presença no Mapa.
Trata-se da segunda vez que o Brasil atinge esse marco — a primeira ocorreu em 2014, antes de uma reversão provocada por desmontes de políticas públicas entre 2019 e 2021.
2. Queda da insegurança alimentar severa
De acordo com o relatório SOFI 2024, entre 2022 e 2023, a insegurança alimentar severa no Brasil caiu 85%, passando de aproximadamente 17,2 milhões de pessoas em 2022 para 2,5 milhões em 2023 — ou cerca de 1,2% da população.
Esse número reforça a melhora significativa no acesso à alimentação adequada em um curto período.
3. Situação atual da insegurança alimentar
Apesar da saída do Mapa da Fome, ainda há cerca de 7 milhões de pessoas vivendo em insegurança alimentar severa — cerca de 3,4% da população no período 2022‑2024.
Além disso, insegurança alimentar moderada (ou grave) atinge cerca de 13,5% da população, ou aproximadamente 28 a 28,5 milhões de pessoas.
4. Dados do IBGE sobre insegurança alimentar (2023)
Informações baseadas em Pnad Contínua com aplicação da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA):
72,4% dos lares brasileiros estavam em situação de segurança alimentar em 2023 — equivalente a 56,7 milhões de domicílios e cerca de 70,3% da população (~152 milhões de pessoas).
Os 21,6 milhões de domicílios restantes (cerca de 64,2 milhões de pessoas, ou 29,7% da população) viviam algum grau de insegurança alimentar.
Entre os lares em situação moderada ou grave, 50,9% tinham rendimento per capita de até meio salário mínimo.
Raça/etnia: famílias com pessoas negras ou pardas estavam sob maior risco — 54,5% dos lares com insegurança alimentar tinham referência parda (vs. 44,7% no total) e 15,2% tinham referência preta (vs. 12% no total).
Gênero: mulheres eram referência em 59,4% dos lares com insegurança alimentar, acima da proporção total de domicílios (51,7%).
Políticas públicas e estratégias federais
Uma série de ações implementadas a partir de 2023 foram decisivas para os avanços:
Reinstalação do Consea (Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional) e relançamento do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
Lançamento do Plano Brasil Sem Fome, com iniciativas como Bolsa Família (reformulado), Cozinha Solidária, alimentação escolar, apoio à agricultura familiar e promoção de merenda escolar saudável e local (PNAE).
Reforço no PNAE: aumento de até 39% nos repasses, com foco em compra de alimentos da agricultura familiar (incluindo povos indígenas e quilombolas), e limites crescentes ao uso de ultraprocessados nas escolas públicas (15% em 2025, 10% em 2026).
6. Olhando adiante: desafios e oportunidades
A redução dos pobres extremos para 4,4% em 2024, a menor desde 2018, acompanhada da queda do desemprego a 6,6% e do índice de Gini (0,506, menor na série histórica), mostram avanço socioeconômico importante.
Mesmo com a queda de insegurança alimentar, ainda restam 50 milhões de pessoas sem condições de alimentação alimentar saudável em 2024 (23,7%), segundo a FAO — queda moderada, mas ainda expressiva em número absoluto.
A obesidade, que cresceu de 19% em 2012 para 28% em 2022, também revela que acesso à alimentação não significa qualidade nutricional
A saída do Mapa da Fome da ONU em julho de 2025 simboliza um avanço histórico, resultado de políticas coordenadas e retomadas de programas estruturantes. No entanto, a insegurança alimentar ainda afeta milhões de brasileiros — especialmente de forma desigual por gênero, raça e renda.
O desafio agora é garantir que esse progresso seja sustentável e irreversível: fortalecer a soberania alimentar, expandir o acesso a alimentos saudáveis, e continuar enfrentando as desigualdades estruturais que ainda mantêm milhões sem garantia básica de dignidade alimentar.
Josué Morais.
Comentários
Postar um comentário